Enquanto as fábricas funcionam a todo vapor e milhões de produtos alimentícios saem das linhas de produção a cada minuto, um tipo mais silencioso de dedicação se desenrola em quintais ao redor do mundo.

Você provavelmente já viu algum legume ou verdura gigante na televisão ou numa feira local — essas colossais quebradoras de recordes que rendem fitas e direitos de se gabar na vizinhança. Adentrar o mundo genuíno e despretensioso dos cultivadores que nutrem essas criações enormes é um contraste marcante com o acelerado cenário industrial alimentar que costuma dominar as manchetes. Mas esse mundo é maior do que parece. Para entender a comunidade por trás dos vegetais gigantes competitivos, conversamos com Kevin Fortey, detentor de 14 recordes mundiais Guinness e um dos maiores entusiastas da comunidade.


Onde tudo começou. O local original do Campeonato de Vegetais Gigantes em Cwmbran, no Sul do País de Gales.

Uma vida enraizada na horta

Chegando direto da horta para a entrevista, Kevin sentou e nos contou como começou a cultivar produtos gigantes. Para ele, tudo começou num pub no Sul do País de Gales, onde o pai de Kevin desafiou alguns amigos a ver quem conseguia cultivar a maior abóbora. A brincadeira foi tão divertida que virou tradição. Com o crescimento da popularidade veio um crescimento proporcional no tamanho das abóboras, e não demorou muito para que elas não coubessem mais pela porta do pub. 

A partir daí, o pai de Kevin encontrou outro local para o que viria a ser conhecido como o Desafio Britânico de Vegetais Gigantes. Kevin ficou apaixonado por trabalhar na horta com o pai, participar de competições e acumular recordes em família. Ele cultiva vegetais desde os quatro anos de idade, e hoje ainda planta seus produtos gigantescos no mesmo quintal onde aprendeu ao lado do pai. O pai de Kevin já faleceu, mas as tradições que construíram juntos continuam a moldar a missão de Kevin: cultivar, ensinar e compartilha

A receita de um gigante

Cultivar vegetais gigantes pode parecer uma excentricidade vista de fora, mas os cultivadores competitivos dirão que é, na verdade, um exercício de ciência precisa. Por trás de cada abobrinha ou pimenta superdimensionada que quebra recordes há um enorme investimento de tempo, paciência e disposição para falhar antes de ter sucesso.

 "A primeira parte tem a ver com genética", explica Kevin. "Você não pode simplesmente comprar um pacote de sementes no supermercado." Os cultivadores trocam sementes especializadas e constroem um solo rico por meio de adubos verdes, análises de solo e análises de tecido foliar. Fatores ambientais acrescentam camadas ainda mais complexas — clima, risco de doenças, saúde do solo, irrigação e luz solar fazem toda a diferença. Um cultivador no Alasca, por exemplo, produziu o maior repolho do mundo — pesando 61 kg — em parte graças às 24 horas de luz solar diária, enquanto cultivadores no País de Gales muitas vezes precisam complementar a luz natural com iluminação artificial.

Com a genética certa garantida, os cultivadores passam meses ou até anos conduzindo uma única planta ao seu pleno potencial, rastreando linhagens por gerações como se fossem cavalos de corrida puro-sangue. Mas nem mesmo a melhor genética protege contra o excesso de entusiasmo. Kevin se lembra de ter cultivado uma abobrinha de quase 90 kg que de repente explodiu depois que ele a alimentou em excesso com potássio. Bastante frustrado, ele ficou grato por esse fracasso, que se tornou uma lição inesquecível sobre moderação. 

Cultivar produtos dignos de competição leva mais tempo do que muitos imaginam. Grande parte do tempo é dedicado a guiar a planta por meio de alimentação cuidadosa, ciência do solo e observação constante. Como Kevin coloca: "Quando você está numa foto ao lado de uma abobrinha gigante, as pessoas não percebem que você cultivou cinco delas e apenas uma sobreviveu." É um lembrete de que grandes vitórias muitas vezes se erguem sobre uma montanha de fracassos silenciosos. O cultivo competitivo é parte experimento científico, parte teste de resistência e parte declaração de amor à própria planta.


É preciso tanto Kevin quanto seu vizinho para carregar este repolho enorme até o veículo para a viagem ao Chelsea Flower Show — a logística pode ser um dos maiores desafios nas competições de cultivo gigante.

Competindo pela comunidade

Talvez o evento mais conhecido no cultivo competitivo de alimentos seja o Campeonato Britânico de Vegetais Gigantes CANNA, realizado em Malvern e frequentado por milhares de pessoas todo mês de setembro. É o mesmo evento que o pai de Kevin iniciou anos atrás, e que foi evoluindo e sendo preservado ao longo de décadas. Representantes do Guinness World Records aparecem para registrar os produtos que quebram recordes, novos competidores trazem inscrições impressionantes, e cultivadores experientes celebram as conquistas uns dos outros. A competição é menos uma batalha acirrada pelo primeiro lugar e mais uma comunidade. Kevin destaca o ambiente ao observar: "Às vezes alguém quebra o seu recorde ou aparece com algo mais pesado ou mais comprido, mas tudo faz parte da diversão de cultivar."

O cultivo de vegetais gigantes já foi uma atividade mais secreta, com cultivadores guardando sementes e métodos a sete chaves. Hoje, pende mais para o lado comunitário, com cultivadores compartilhando abertamente suas técnicas, sementes e experiências. Kevin segue o lema do pai — "Não leve seus segredos para o túmulo" — e se tornou um defensor da transmissão do conhecimento aos recém-chegados. Ele criou um grupo no Facebook chamado Giant Vegetable Community, onde os membros se unem em torno da paixão pelo cultivo, trocando histórias e compartilhando boas práticas. As redes sociais só fortaleceram essa cultura, conectando cultivadores ao redor do mundo, do Havaí à Rússia. 

Para muitos, a jardinagem pode significar muito mais do que um simples hobby. Kevin frequentemente fala sobre a rotina reconfortante de cuidar das plantas e como esse propósito diário pode apoiar o bem-estar mental. Ele viu amigos encontrarem uma nova estabilidade por meio da jardinagem, e acompanhou comunidades inteiras — escolas, presídios, casas de repouso e outras — adotarem o cultivo como uma prática significativa. "O cultivo não tem barreiras sociais", diz ele. Ele relembrou como um detento numa prisão onde foi palestrar participou da mesma sessão três vezes, tamanho era seu entusiasmo, e começou a cultivar vegetais gigantes no próprio presídio, para serem usados no refeitório. 

O que mais ressoa entre os cultivadores, mencionou Kevin, é o progresso lento e visível que a jardinagem oferece. Num mundo frequentemente movido pela gratificação instantânea e por resultados rápidos, ainda há muitos que valorizam a paciência, a observação e a curiosidade que o cultivo exige. As competições de vegetais gigantes celebram grandes conquistas, mas a verdadeira recompensa está na alegria compartilhada de nutrir algo extraordinário.

O que acontece com os vegetais gigantes após a competição?

Bancos de alimentos: 

Muitos dos gigantes classificados são doados após a avaliação. Eles são fatiados e distribuídos por bancos de alimentos — ou seja, vegetais premiados acabam alimentando a comunidade.

Marketing e eventos: 

De campanhas nas redes sociais a objetos de cena inusitados em eventos, organizações frequentemente solicitam os produtos gigantes para uso promocional. Kevin observa que essa visibilidade ajuda a aumentar o reconhecimento do esporte.
para esporte.

Fio dental: 

Os talos de cenouras recordistas podem chegar a mais de 6 metros de comprimento! As raízes das cenouras pós-competição são tão resistentes que já foram reaproveitadas como fio dental.

Compostagem e fazendas: 

Tudo o que não é doado é reciclado — adicionado à compostagem ou entregue a fazendas locais como ração animal, eventualmente voltando à cadeia alimentar. 


O verdadeiro prêmio

Ao encerrarmos nossa conversa, Kevin continuava voltando a uma verdade simples: a comida é profundamente pessoal. Os vegetais gigantes podem chamar a atenção, mas o significado por trás deles é universal. Kevin insiste que qualquer pessoa pode cultivar algo que importa — seja uma beterraba recordista mundial ou um único tomateiro no parapeito da janela. A jardinagem convida à observação, à paciência, à resolução de problemas e a um senso de propósito. Ela te obriga a desacelerar, se adaptar e tentar de novo. Em sua essência, a jardinagem é um lembrete de que o crescimento — das plantas, da comunidade ou de nós mesmos — começa com a menor das sementes. ◆


As linhagens genéticas são essenciais para cultivar vegetais verdadeiramente gigantes. Aqui, Kevin segura um espécime da linhagem recordista mundial de pimentão.